sábado, 13 de setembro de 2014

A criação de um universo em sete meses, por Lorena Miranda Cutlak


Poucos questionarão a ideia de que o casamento sela a transição da adolescência para a idade adulta. Quando escolhemos dar o passo do matrimônio, sabemos em teoria – na melhor das hipóteses – que se trata de uma grande mudança de vida, transformadora nos mais diversos e misteriosos sentidos. Mas tendo a pensar – estando casada há apenas sete meses e portanto em pleno olho do furacão – que ninguém tem realmente noção da gravidade da coisa até vivenciá-la. Não importa quantos livros sobre o assunto você leu e com quantas amigas casadas conversou – a complexidade não está no aspecto exterior da vida doméstica, nem exatamente nos pequenos acordos cotidianos que têm de se firmar entre marido e mulher (muitos deles comuns à maioria dos casais); a verdadeira seriedade que vem com o casamento é a que se faz sentir em você, no indivíduo novo que surge com o passar dos dias, dos meses, dos anos, idêntico e ao mesmo tempo abissalmente diverso daquele adolescente que disse sim na igreja. O casamento transforma; em certo sentido, enrijece; você fica, sim, mais fortinho para a vida.

É claro que aqui tenho em mente a situação em que o casal de fato se casa. Todos sabemos da frivolidade com que muitas pessoas têm dado bailes caríssimos para firmar uniões de fumaça, ou mesmo da existência de casais que convivem e coabitam sem realmente partilhar do mesmo plano de vida, precavidos demais para abrir uma conta conjunta. E também aqueles que, casados, não saem nunca, ainda que metaforicamente, da casa dos pais... Há vários modos de se enfraquecer ou mesmo anular o pacto matrimonial. Mas o que me interessa aqui é a situação em que ambos, marido e esposa, transcendem o brincar de casinha e decidem construir algo verdadeiramente uno. 

O tema principal deste texto, no entanto, é maternidade – maternidade e, ao mesmo tempo, as transformações que o matrimônio opera na alma dos esposos. Acontece que a maternidade (como a paternidade) é precisamente a transformação fundamental – é a síntese, no plano concreto como no simbólico, de todas as pequenas revoluções pessoais e conjugais que vêm com o matrimônio, virando-nos do avesso, trazendo à tona uma nova versão de nós mesmos impossível de se alcançar de outro modo.

Apenas sete meses de casada e já fazendo afirmações tão grandiosas, Lorena? Pois é. Hora de adotar um tom mais biográfico.

Filha única de mãe solteira, cresci criada a Danoninho e MUITO mimo materno. Amor verdadeiro nunca é em excesso, mas o fato é que minha adolescência se prolongou bem mais do que deveria, e aos 22 anos eu ainda vivia confortavelmente trancada em meu quarto lendo meus livros, vendo meus filmes e morando em casa como num hotel. Teria ficado assim por mais uns bons anos, não fosse o quase inverossímil advento de um príncipe louro que, completado o primeiro ano de namoro, começou a falar em casamento. E de falar passou a insistir, obrigando-me a dar o primeiro passo no sentido de tomar as rédeas de minha própria vida. Cresci lendo Álvares de Azevedo – é claro que eu queria me casar. Mas os passos concretos da coisa, procurar casa, calcular nosso apertado orçamento, tornar definitiva (ou algo semelhante a isso) a residência na cidade horrenda de São Paulo – a realidade era muito mais opaca do que se acostumara a concebê-la minha imaginação livresca. Ou talvez tudo isso fosse apenas desculpa forjada pelo único verdadeiro problema: eu não queria crescer.

De modo algum pretendo me eximir da responsabilidade por essa atitude, mas o fato é que vivemos em uma cultura que, por motivos obscuros, não está muito interessada em que cresçamos. Dois anos de namoro e já vão se casar? Ainda é cedo, vocês não têm nem trinta anos. E ganham pouco. A Lorena sequer trabalha. (Eu fazia mestrado, o que, devo concordar, pode ser o extremo oposto de “trabalho”.) Não fosse a loucura do meu então noivo – que é, no fim das contas, uma das pessoas mais realistas que já conheci, com um olhar claríssimo capaz de ver, como que sem esforço, as coisas como elas são –, não fosse ele ter concluído, com um senso prático muito raro em nossos dias, que não faz o menor sentido viver um ano com uma pessoa sem ter a intenção de dedicar os anos restantes a ela, e que se se tem essa certeza se tem tudo o que é necessário para contrair matrimônio; e não fosse ele ter me acordado de meu torpor comodista para que juntos ignorássemos os conselhos de “prudência” que as pessoas nos davam, talvez ainda estivéssemos, nós e nossos quase trinta anos, esperando a missa de sétimo dia da bezerra para depois quem sabe um dia pararmos de beber das tetas de nossos pais.

Casamos, e foi um evento memorável em muitos sentidos: arrastamos 60 paulistas, entre familiares e amigos, para Belém do Pará, minha cidade natal, pois eu não poderia me casar com um príncipe em outro lugar que não a belíssima Basílica de Nazaré. Foi no dia 15 de fevereiro deste ano de 2014.

Não sei quanto à maioria das recém-casadas, mas para mim os primeiros dias foram difíceis. Havia a parte prática – aprender da noite para o dia a administrar uma casa, eu que quando lavava mais do que minha própria louça já me sentia livre do Purgatório; e havia, sobretudo, a parte emocional, psicológica. Eu me sentia muito menor do que o passo que tinha dado. Meu marido sempre firme, pronto para tudo, forte como um touro, e eu à base de tranquilizantes. (Nem todas as circunstâncias biográficas cabem num texto público, leitor, vá desculpando.)

Mas aqueles dias passaram. E a casa, aos poucos, foi ficando mais ampla, mais sob controle. Eu ia a cada dia descobrindo como ser uma esposa. Era um equilíbrio tênue – qualquer emoção mais forte poderia me levar de volta ao sono dos remédios. Eu não podia me descontrolar. E, portanto, havia um cuidado mais premente do que todos: não engravidar. Ao menos na minha cabeça era assim. E não preciso nem dizer que na cabeça “das pessoas” era o mesmo: casaram-se, muito bem; mas não sejam loucos de ter filho agora, né? Vocês não têm nem casa própria. Então mais uma vez, como uma luz no fim do túnel, veio a loucura do meu marido. Com pouco mais de um mês de casados, chamei-o para uma conversa cujo objetivo era estabelecer que adiaríamos um pouco o primeiro filho. Falei, falei, chorei e a primeira e uma das únicas frases que ele disse naquela ocasião foi: “Pensei que nós tínhamos começado uma família pra valer.” E eu queria dizer que começamos, sim, mas ao mesmo tempo sabia que essa resposta contradizia todo o meu discurso pleiteando o adiamento do filho. Então apenas chorei e implorei: engravidar naquele momento “desestabilizaria minha cabeça.” E a frase clássica: “Ainda não estou pronta”. 

A doce ironia, leitor, é que durante aquela conversa eu já estava grávida. Engravidei uns dez ou quinze dias depois do casamento. Não, eu certamente não estava pronta para me descobrir grávida naquele momento, mas o fato é que meu corpo estava prontíssimo para receber uma nova vida. E assim se fez o milagre. Confirmada a gravidez, a primeira medida foi parar de tomar todos os remédios (e eu sempre tomei muitos, principalmente para controlar uma gastrite incurável), o que era um terceiro degrau na escala de dificuldade que eu brincava de traçar mentalmente: primeiro esposa, depois grávida, depois grávida-vomitando-com-azia-o-dia-todo. Sem qualquer tranquilizante. (Depois ainda viriam outros degraus, tema de um próximo texto.)

Mas eu disse que se fez o milagre, não disse? Passado um novo período de difícil adaptação física e psicológica à nova realidade, a natureza fez sua parte: aos poucos meu sono começou a vir naturalmente e meu estômago voltou ao seu normal (o que não é nenhuma maravilha, mas estou sem tomar remédios). E hoje a gravidez transcorre tranquilamente, a barriga cresce, minha pequena Maria dá chutes e cambalhotas aqui dentro – fez-se um verdadeiro milagre! O que parecia absurdo é um fato, o supostamente insuportável foi vencido pela constância dos dias e o desespero, o descontrole e a loucura foram combatidos com muita oração. E vencidos.

Tudo isso me faz pensar nas pessoas que evitam filhos pensando que assim evitam problemas (como eu mesma quis fazer em meu primeiro mês de casada). “Filhos dão trabalho e atrapalham a relação do casal”, “Filho não segura casamento”... Penso que a ideia de que um casal se mantém unido por causa de um filho é verdadeira não tanto porque ambos, diante da possibilidade de separação, considerem o sofrimento da criança, mas sobretudo por causa do tipo de vínculo que se estabelece quando duas vidas geram uma terceira, quando duas pessoas juntas assumem a responsabilidade de guiar um novo ser pelos caminhos do mundo. Há, nessa relação, muito mais do que gostar do outro ou se sentir bem na companhia dele: há cumplicidade. Entre todas as coisas que existem, existe uma (ou mais de uma!) que é feita da matéria de ambos. Os casais que optam por não ter filhos reduzem sua relação a um vínculo de afeto, quando a natureza lhes dá a possibilidade de unir-se verdadeiramente em carne e osso. E não é que o filho seja um mero símbolo. Repito: o fundamental é o vínculo que o casal estabelece em função dessa realidade compartilhada cotidianamente.

Sem dúvida isso se intensificará depois que nossa filha nascer, mas é certo que meu casamento só começou de verdade depois que nos descobrimos pai e mãe. É impossível não ceder à gravidade dessa descoberta, é impossível ainda manter-se apegado às pequenezas do dia a dia diante de algo tão maior. É nesse sentido que um filho consuma um casamento. E, sendo assim, é claro que ele jamais virá quando você estiver pronto – ele vem justamente para fortalecer você diante de todo o resto. Um filho permite que você observe suas circunstâncias por uma perspectiva totalmente nova e elimine o que é supérfluo, circunscrevendo sua atenção aos dados e problemas mais fundamentais.

Eu antes vivia para evitar minhas crises e “não sobrecarregar minha cabeça.” Minha filha apareceu aqui dentro e, em vez de desencadear uma crise, abriu uma nova dimensão da existência onde a “minha cabeça” importa muito pouco. Como ouvi uma vez alguém dizer: a gente acha que já amou, mas então vem o filho e abre um novo tamanho. Os problemas mudam. Você muda. Você cresce. O casamento que gerou essa nova vida mostra sua força. Tudo faz sentido de um jeito que por vezes pode ser bastante dolorido, mas o é do mesmo modo como um parto há de ser: inteiramente gratificante. Você não deseja estar em outro lugar; você quer precisamente a sua vida. E a vida que cresce dentro de você. De um jeito estranho, muito estranho. Mas que você compreende como se cada passo seu não tivesse tido jamais outro objetivo.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sobre a covardia intelectual: os burros, os frouxos e os que pensam com próprios miolos

Aprendi na escola que uma fórmula conhecida no Brasil para escrever um bom texto é não começá-lo com generalizações radicais demais. Contaram-me que elas afastam leitores. Brasileiros, em especial, fogem de tudo que lhes parece forte demais, extremo, radical, pesado. Dá medo. Sim, sim, a gente sabe que é verdade. Temos medo de confrontamentos, debates e de tudo aquilo que exige esforço mental, justificação e argumentação. Afinal, para dizer uma frase de impacto, é preciso ter embasamento teórico capaz de justificar o que se diz - coisa que o brasileiro comumente não tem. Se o assunto pede aprofundamento, estudo e leitura para que se possa debatê-lo, ele é triturado e mastigado pelos “intelectuais” da academia, que em jargões e frases vazias tratam de ensinar ao povo o que devem pensar. Mas em geral, mais fácil falar da novela, do futebol, da vizinha, da amiga da Fulana que comprou um vestido feio, da colega de trabalho que pagou o maior mico... Gente, que mico! Você nem sabe!!! Ficou curioso, né, leitor? 

Pois não tem fofoca alguma por aqui. É só esse assunto introspectivo mesmo, daqueles chatos, enfadonhos, pesados, mas também aqueles que você sabe que, por mais que fuja deles, são os que vão te fazer dormir se sentindo uma pessoa um pouquinho melhor. A gente se sente mais gente de verdade - porque o assunto é de verdade, é relevante! - e especialmente porque quando temos conversas assim estamos em busca da verdade. Por preguiça de ser de verdade, o que pega no Brasil é mastigado, mole, morno, facilitado, “for dummies”. Um exemplo disso foram as várias candidaturas de Lula. O metalúrgico esquisito só se elegeu quando abrandou o discurso, alargou os sorrisos, abaixou o tom de voz, tirou o vermelho de cena e virou "Lulinha paz e amor" – mas que a gente bem sabe que é, na verdade, o "Lulinha mordomia-mor" (às nossas custas).

Acontece que existem certos riscos e radicalismos que são necessários, pois ninguém vive só de meio termo. Viver de ser raso? Deus me livre! Os momentos mais marcantes de nossas vidas são geralmente marcados por risadas e lágrimas - os extremos naturais do nosso corpo! Essa história de ser "meia boca" não funciona. Há uma triste mania do brasileiro de tentar analisar os dois lados de uma questão, achando que pode sempre encontrar uma terceira via que agrade a todo mundo e evidencie o quão inteligente ele é por encontrar esse novo caminho. A perfeita representação disso é vista no babaca que diz que "não existe certo e errado" - caminho clichê, fácil e rápido para pagar de inteligente quando, no fundo, não se faz a menor idéia do que está sendo tratado. Não à toa Marina Silva deslancha nas pesquisas com discurso vazio mas cheio das palavras “moderação, terceira via, novo caminho, nova política”. Vamos combinar? Está na hora de mandarmos essas figuras catarem coquinhos. 

Inteligência não tem nada a ver com ser sonso. O verdadeiro intelectual não tem medo de se posicionar, argumentar, demonstrar de onde tirou suas conclusões. O combate a esses "gostosões intelectuais"¹, no entanto, só é possível com um pouco de valentia. Os metidos a intelectuais podem se achar muito corajosos por falar sem saber, por comentar sem conhecer e jurar que estão enganando todo mundo. No fundo são ainda mais medrosos, têm medo da coisa mais elementar na vida humana: a verdade. Tornam-se pessoas de mentira, vivem de máscaras e de aparências. Qualquer um que fuja do conhecimento, do estudo e da busca da verdade é um ser humano de mentira.

Há, no entanto, a valentia, que, se aliada com a prudência, é capaz de mover montanhas. Essa valentia é a valentia de assumir nossa pequeneza, nossa ignorância, nossa necessidade de amor e de atenção. Somente reconhecendo tudo isso somos capazes de superar imaturidades, e fazer um voto de pobreza de opinião sobre aquilo que não conhecemos. Sem esse tipo de valentia, o sujeito acovarda-se diante da primeira palavra difícil do livro ou do primeiro parágrafo do artigo. Sem esse tipo de valentia, a criatura arregala os olhos e cala-se diante do primeiro argumento que não sabe responder; tenta apegar-se desesperadamente aos cacoetes vazios e insípidos da “academia”, e sai por aí dizendo que pensa com os próprios miolos.

Às favas com o medo e com nossos próprios miolos. Está na hora de largarmos essa frouxidão de achar bonito ser o medíocre que se esconde na multidão burra. Precisamos nos arriscar mais em nossa vida intelectual. O meia-boca não serve mais. Temos de reconhecer nossa ignorância, com coragem para mudá-la. Só assim deixaremos de ser o país do futuro, e passaremos a ser a potência presente. Larguemos já a mania de adiar com "jeitinho". Um país jamais terá seu potencial miraculosamente explorado se os indivíduos que nele vivem não se desenvolverem e buscarem ser pessoas melhores, com coragem, sem adiar, e sem medo de buscar nos grandes homens seus exemplos.